Poucas coisas mudaram tanto o tratamento da obesidade nos últimos anos quanto os análogos de GLP-1 e os agonistas duplos. Também poucas coisas geraram tanta expectativa desproporcional.
Vale olhar o que os ensaios clínicos realmente mostraram, e o que fica de fora deles.
Os números dos ensaios
Nos estudos STEP, a semaglutida 2,4 mg produziu reduções médias de peso corporal na faixa de 10% a 18% em adultos com obesidade, com e sem diabetes tipo 2.
Nos estudos SURMOUNT 1 a 4, a tirzepatida produziu reduções de 13% a 23%, a depender da dose e da população.
Em 2025, o SURMOUNT-5 comparou os dois diretamente, em adultos com obesidade sem diabetes. Em 72 semanas, a redução média foi de 20,2% com tirzepatida contra 13,7% com semaglutida, algo em torno de 22,8 kg contra 15,0 kg. A proporção de participantes que perdeu 25% ou mais do peso foi de 31,6% com tirzepatida e 16,1% com semaglutida.
São resultados que, até pouco tempo atrás, só apareciam em cirurgia bariátrica.
O que esses números não dizem
Não dizem que serve para todo mundo. São medicamentos com indicação clínica definida, contraindicações e efeitos adversos reais, a maioria gastrointestinal, mas não só. A decisão de usar é individual e passa por avaliação médica.
Não dizem o que acontece depois. Ao interromper o tratamento, boa parte do peso tende a retornar. Isso não é um defeito do remédio: é a confirmação de que a obesidade se comporta como doença crônica, e não como um problema pontual que se resolve e acaba.
Não dizem de onde saiu o peso. Perda de peso rápida sem atenção à massa muscular resulta em perda de massa magra junto. Já há discussão na literatura sobre a redução de massa muscular e do gasto energético associada a essas terapias, e sobre o papel disso no platô e no reganho. Por isso proteína adequada e treino de força não são acessórios do tratamento. São parte dele.
O que costuma ser esquecido
O medicamento age sobre apetite e saciedade. Ele não investiga por que aquele corpo específico chegou até ali. Resistência à insulina, alteração de tireoide, apneia do sono, uso de medicações que favorecem ganho de peso, quadro hormonal: nada disso é resolvido por prescrição isolada.
Essa é a diferença entre usar uma ferramenta dentro de um plano e usar uma ferramenta no lugar do plano.
Como eu enxergo o papel dessas medicações
São um recurso legítimo e, em casos selecionados, transformador. Mas funcionam melhor quando entram depois da investigação, não antes dela, e acompanhadas de estratégia alimentar, treino de força e monitoramento de composição corporal ao longo do tempo.
Se você está considerando ou já usa alguma dessas medicações e quer entender se faz sentido no seu caso, o caminho é uma avaliação que olhe o quadro inteiro: história clínica, exames e composição corporal. Agende uma consulta para conversarmos sobre o seu caso.
Cada paciente deve ser avaliado individualmente. Nenhum medicamento deve ser iniciado, ajustado ou interrompido sem orientação médica.
Dr. Pedro Antônio de Paula de Pauli · CRM/SP 254.273
