Existe um resultado na literatura do diabetes que, quando eu explico no consultório, costuma mudar a cara da pessoa do outro lado da tela. Ele responde a uma pergunta que quase todo mundo faz sem falar em voz alta: "tudo bem descuidar um pouco agora e apertar depois?"
A resposta está num estudo que começou em 1977.
O UKPDS
O UK Prospective Diabetes Study acompanhou mais de cinco mil pessoas com diabetes tipo 2 recém-diagnosticado, divididas entre controle glicêmico intensivo e controle convencional. Durou vinte anos.
O resultado publicado em 1998 já era importante: o grupo intensivo teve cerca de 25% menos complicações microvasculares, aquelas que afetam olho, rim e nervo.
Até aí, nada surpreendente. O interessante veio dez anos depois.
O que aconteceu quando o estudo acabou
Terminada a pesquisa, todos os participantes voltaram ao cuidado habitual. Em menos de um ano, a diferença de hemoglobina glicada entre os dois grupos desapareceu: passaram a ter controle semelhante.
Os pesquisadores continuaram acompanhando essas pessoas por mais dez anos. Se o benefício dependesse do controle atual, ele deveria ter evaporado junto com a diferença de glicada.
Não foi o que aconteceu. Dez anos depois, o grupo que havia sido tratado de forma intensiva no início ainda tinha:
- 24% menos complicações microvasculares
- 15% menos infarto do miocárdio
- 13% menos mortalidade por qualquer causa
Entre os que haviam usado metformina, os números foram ainda maiores: 33% menos infarto e 27% menos mortes.
Esse fenômeno ganhou nome: efeito legado. O corpo parece guardar memória do que aconteceu com a glicose nos primeiros anos, e cobra ou credita isso décadas depois. Alterações duradouras nos tecidos e o acúmulo de produtos da glicação estão entre as explicações propostas.
O mesmo padrão foi descrito no diabetes tipo 1, em outro estudo clássico, com o nome de memória metabólica.
A leitura inversa: apertar tarde não é a mesma coisa
Aqui vem a parte que costuma ser omitida quando se conta essa história.
Em 2008, o estudo ACCORD testou controle muito intensivo, com meta de glicada abaixo de 6%, em mais de dez mil pessoas com diabetes de longa data e alto risco cardiovascular. O ensaio foi interrompido antes do previsto: o grupo intensivo teve mortalidade cerca de 22% maior.
Outros dois grandes estudos com populações parecidas não mostraram redução de mortalidade.
Ou seja: a regra não é "quanto mais baixo, melhor". A regra é "quanto mais cedo, melhor". Controle rigoroso logo no diagnóstico rende benefício que dura décadas. O mesmo rigor aplicado quinze anos depois, num organismo já com doença cardiovascular estabelecida, pode custar mais do que entrega, principalmente pelo risco de hipoglicemia.
O que isso muda na prática
A meta é individual. Alguém jovem, com diagnóstico recente e sem doença cardiovascular, se beneficia de uma meta mais apertada. Alguém idoso, com muitos anos de doença, risco de hipoglicemia ou outras condições associadas, se beneficia de uma meta mais frouxa. Usar o mesmo alvo para os dois é errado nas duas direções.
O momento do diagnóstico é o de maior alavancagem que existe. É a janela em que o mesmo esforço compra o maior retorno. É também, ironicamente, o momento em que a pessoa costuma se sentir bem e ter menos pressa, porque o diabetes tipo 2 não dói.
E existe uma janela ainda anterior a essa, que é a do pré-diabetes, onde a intervenção é mais barata e o retorno é maior ainda.
Se você recebeu o diagnóstico há pouco tempo, esse é o melhor momento possível para montar um plano bem-feito. Agende uma consulta ou veja como funciona o acompanhamento de diabetes e resistência à insulina.
Cada paciente deve ser avaliado individualmente. Metas de tratamento são definidas caso a caso, e nenhum medicamento deve ser iniciado, ajustado ou interrompido sem orientação médica.
Dr. Pedro Antônio de Paula de Pauli · CRM/SP 254.273
