Poucos exames carregam tanto peso emocional quanto a hemoglobina glicada. O número chega e vira nota de prova: passei ou não passei nesses três meses.
Só que a glicada não funciona bem assim, e entender como ela é construída muda a forma de ler o resultado.
O que ela mede
A glicose que circula no sangue se prende à hemoglobina, a proteína que dá cor às hemácias. Essa ligação é lenta e praticamente irreversível. A glicada mede a porcentagem de hemoglobina que está com açúcar grudado.
Como a hemácia vive cerca de 120 dias, o exame reflete um período de dois a três meses. Mas o peso desse período é desigual: cerca de metade do resultado vem do último mês, e apenas cerca de um quarto vem do intervalo entre 60 e 120 dias atrás.
A consequência prática é direta. As duas semanas anteriores à coleta mexem bastante no número. Um mês bem-comportado há três meses quase não aparece. Isso explica muita discrepância entre o que o paciente sentiu que fez e o que o exame mostrou.
Traduzindo o número para glicemia
Um estudo internacional cruzou glicada com medições contínuas de glicose e produziu uma equivalência aproximada. É útil para tirar o exame do abstrato:
- Glicada 6,0% corresponde a uma glicemia média em torno de 126 mg/dL
- 6,5%: cerca de 140 mg/dL
- 7,0%: cerca de 154 mg/dL
- 8,0%: cerca de 183 mg/dL
- 9,0%: cerca de 212 mg/dL
Cada ponto percentual de glicada equivale a quase 30 mg/dL de glicemia média. É por isso que uma variação que parece pequena no papel não é pequena no corpo.
Os pontos de corte do diagnóstico
Para diagnóstico, três exames são aceitos:
- Glicemia de jejum: normal abaixo de 100 mg/dL, pré-diabetes de 100 a 125, diabetes a partir de 126
- Hemoglobina glicada: normal abaixo de 5,7%, pré-diabetes de 5,7% a 6,4%, diabetes a partir de 6,5%
- Teste oral de tolerância à glicose, na segunda hora: normal abaixo de 140 mg/dL, pré-diabetes de 140 a 199, diabetes a partir de 200
Um detalhe que costuma passar batido: salvo em quem tem sintomas clássicos com glicemia muito alta, um único exame alterado não fecha diagnóstico. É preciso confirmação, seja repetindo o mesmo exame, seja com um segundo exame diferente também alterado.
Onde a glicada engana
Ela é uma média, e média esconde variabilidade. Duas pessoas com glicada de 7% podem viver realidades muito diferentes: uma com glicemias estáveis em torno de 150, outra alternando picos de 250 com quedas de 60. A segunda corre riscos que o exame não mostra. É para isso que serve a monitorização contínua de glicose, que descreve o tempo dentro da faixa alvo, e não só a média.
Tudo que altera a vida da hemácia altera o resultado. Se as hemácias vivem menos, sobra menos tempo para o açúcar grudar, e a glicada sai falsamente baixa: é o que acontece em hemólise, sangramento recente, transfusão, gestação e uso de eritropoetina. Se vivem mais, o efeito é o inverso: a anemia por falta de ferro, por exemplo, tende a elevar a glicada sem que a glicose tenha subido.
Hemoglobinas variantes interferem. Traço falciforme e outras variantes podem distorcer a medida, e o quanto depende do método usado pelo laboratório.
Doença renal crônica e diálise alteram o resultado por vários mecanismos ao mesmo tempo.
Existe variação individual na própria glicação. Duas pessoas com a mesma glicemia média podem ter glicadas consistentemente diferentes. É um fenômeno descrito, e é uma das razões para não tratar o número como verdade absoluta.
Como eu uso o exame
A glicada é excelente para acompanhar tendência ao longo do tempo, e é o melhor exame isolado que existe para isso. Mas ela responde uma pergunta só, e responde com atraso.
Por isso ela anda acompanhada: glicemia de jejum, o contexto clínico, o hemograma quando há suspeita de interferência, e a medição capilar ou contínua quando a suspeita é de variabilidade escondida atrás de uma boa média.
Se você tem exames alterados ou glicada que não bate com o que você esperava, agende uma consulta para avaliarmos o quadro inteiro. Você também pode ver como funciona o acompanhamento de diabetes e resistência à insulina.
Cada paciente deve ser avaliado individualmente.
Dr. Pedro Antônio de Paula de Pauli · CRM/SP 254.273
