O IMC foi criado para descrever populações, não indivíduos. Ele funciona razoavelmente bem para dizer que uma cidade engordou. Funciona mal para dizer o que está acontecendo com uma pessoa específica sentada na sua frente.
O motivo é que ele não faz a única pergunta que muda o prognóstico: onde essa gordura está?
Duas gorduras, dois comportamentos
A gordura subcutânea é a que fica logo abaixo da pele, a que dá para pinçar com os dedos. Ela é, em boa medida, um depósito.
A gordura visceral é outra coisa. Ela fica dentro da cavidade abdominal, envolvendo fígado, intestino e pâncreas, e se comporta como um órgão endócrino ativo: libera ácidos graxos livres e substâncias inflamatórias diretamente na circulação portal, que vai direto para o fígado.
O resultado dessa drenagem privilegiada é o que se vê no laboratório. A gordura visceral tem associação consistente com resistência à insulina, dislipidemia aterogênica (triglicerídeos altos com HDL baixo), esteatose hepática, hipertensão e doença cardiovascular. Em vários desses desfechos, ela prediz risco melhor do que o IMC.
É também por isso que existe o fenômeno da obesidade central com peso normal: pessoas com IMC dentro da faixa considerada normal, mas com acúmulo visceral, que apresentam risco de mortalidade maior do que se esperaria pelo peso. O número da balança tranquiliza, e não deveria.
A medida que quase ninguém faz
A circunferência abdominal é barata, leva trinta segundos e é subutilizada a ponto de haver documento de consenso internacional pedindo que ela seja tratada como sinal vital, medida na consulta como se mede pressão.
Como medir, para que o número signifique alguma coisa:
- Em pé, sem roupa sobre o local, ao final de uma expiração normal
- A fita paralela ao chão, sem comprimir a pele
- No ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca, ou na altura da cicatriz umbilical, desde que sempre no mesmo ponto
Os pontos de corte variam conforme a referência e a população. Para adultos sul-americanos, a Federação Internacional de Diabetes adota 90 cm para homens e 80 cm para mulheres como limiar de obesidade central. Outras diretrizes trabalham com valores mais altos como marcador de risco muito aumentado. O valor exato importa menos do que o hábito de medir e acompanhar.
Por que a fita muda antes da balança
Esse é o ponto que costuma ser mais útil para quem está em tratamento.
Quando alguém entra em déficit calórico e treina, a gordura visceral tende a ser mobilizada de forma proporcionalmente maior do que a subcutânea. Na prática, é comum a circunferência abdominal cair, a roupa folgar e os exames melhorarem antes de a balança se mover de forma convincente.
Quem acompanha apenas o peso interpreta esse período como estagnação e frequentemente desiste bem no momento em que a parte mais importante está acontecendo.
Há ainda um dado que vale para quem tem pouco tempo: exercício regular reduz gordura visceral mesmo quando o peso total não muda. O benefício metabólico não depende de a balança cooperar.
O que colocar no acompanhamento
Se o objetivo é saúde metabólica e não apenas peso, três coisas medidas juntas dizem mais que qualquer uma isolada:
- Circunferência abdominal, na consulta, sempre do mesmo jeito
- Composição corporal, para separar gordura de massa magra e acompanhar a estimativa de gordura visceral ao longo do tempo
- Exames laboratoriais, principalmente glicemia, insulina, triglicerídeos, HDL e enzimas hepáticas, que são onde a gordura visceral deixa rastro
Se você tem IMC normal mas circunferência aumentada, ou peso estável com exames piorando, o problema pode estar em um compartimento que a balança não enxerga. Agende uma consulta se quiser fazer esse acompanhamento comigo.
Cada paciente deve ser avaliado individualmente.
Dr. Pedro Antônio de Paula de Pauli · CRM/SP 254.273 · CRM/MT 18.470
