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Reposição de testosterona: o que a evidência mostra sobre riscos

O maior ensaio de segurança cardiovascular já feito trouxe resposta para uma pergunta antiga, e abriu outras. O que se sabe, e o que segue em aberto.

5 min de leitura

Por mais de uma década, a pergunta que pairava sobre a reposição de testosterona era cardiovascular: ela aumenta o risco de infarto e AVC? Estudos observacionais conflitantes alimentaram a dúvida, e em 2015 o FDA exigiu que os fabricantes conduzissem ensaios clínicos para responder isso.

A resposta veio em 2023.

O que o TRAVERSE mostrou

O TRAVERSE foi um ensaio multicêntrico, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, de não inferioridade, com 5.246 homens entre 45 e 80 anos com hipogonadismo sintomático e doença cardiovascular preexistente ou alto risco cardiovascular. Foi publicado no New England Journal of Medicine em junho de 2023.

O achado principal: nessa população, a reposição de testosterona foi não inferior ao placebo quanto à incidência de eventos cardiovasculares adversos maiores. Não houve diferença significativa nos desfechos cardiovasculares primários entre os grupos.

Para uma pergunta que ficou aberta por dez anos, isso é uma resposta relevante.

O que o mesmo estudo mostrou de desfavorável

E aqui está a parte que costuma sumir do resumo. No grupo que recebeu testosterona, houve maior incidência de embolia pulmonar, arritmias não fatais, fibrilação atrial e lesão renal aguda.

Não são achados que invalidam o tratamento. São achados que precisam entrar na conversa antes de começar, especialmente em quem já tem risco para essas condições.

O que segue em aberto

O posicionamento da Endocrine Society de julho de 2026 destaca pontos que ainda não estão resolvidos:

  • Câncer de próstata. O câncer de próstata se desenvolve lentamente, e os ensaios podem não ter acompanhado os homens por tempo suficiente. Avaliação de risco antes de iniciar e monitoramento durante o tratamento seguem essenciais.
  • Segurança de longo prazo em geral. As incertezas permanecem, e a Sociedade chegou a propor uma iniciativa de longo prazo em saúde masculina, análoga ao Women's Health Initiative, justamente para fechar essas lacunas.
  • Uso fora de indicação. O documento reforça que o tratamento não deve ser baseado apenas em sintomas, e que não há evidência para rastreamento populacional em homens assintomáticos.

O que isso significa na prática

Um resumo honesto seria:

Em homens com diagnóstico correto de hipogonadismo, a evidência atual não mostra aumento de eventos cardiovasculares maiores. Mas existem sinais de segurança específicos a monitorar, e nesse caso, o acompanhamento não é opcional.

O uso sem indicação é outra conversa

Existe um segundo cenário, bem mais comum do que o consultório registra: homens sem diagnóstico de hipogonadismo usando testosterona por estética, performance ou pela promessa de disposição. Indicada por quem não é médico, combinada na academia, ou comprada por conta própria.

Sobre esse uso, é preciso dizer com todas as letras: os dados de segurança do TRAVERSE não se aplicam.

O estudo avaliou homens com diagnóstico confirmado, em doses de reposição, com acompanhamento médico e monitoramento laboratorial. Nada disso descreve o que acontece quando se usa testosterona sem deficiência, frequentemente em doses suprafisiológicas, sem exame prévio e sem controle nenhum.

Não existe ensaio clínico de segurança para esse uso, e não vai existir: não seria ético desenhar um. O que existe é a literatura sobre uso não médico de esteroides androgênicos, e ela é bem menos animadora.

O que essa literatura mostra

Supressão do eixo hormonal. A testosterona externa desliga a produção própria por retroalimentação negativa. Não é efeito colateral: é como a molécula funciona.

Comprometimento da fertilidade. Ao final de um ciclo, 66% dos usuários apresentam oligozoospermia ou azoospermia em séries publicadas. A recuperação da produção de espermatozoides costuma levar de 18 a 36 meses, e em cerca de 10% a 20% dos casos ela é incompleta, exigindo tratamento específico para estimular a espermatogênese.

Recuperação que nem sempre acontece. Quem usou por menos de um ano tende a recuperar a função do eixo dentro de um ano após parar. Exposição prolongada ou em doses altas se associa a recuperação retardada ou incompleta em uma parcela clinicamente relevante. Um estudo caso-controle mostrou ex-usuários com testosterona reduzida e sintomas de hipogonadismo anos depois de terem parado.

Vale registrar a ironia disso: o uso feito para melhorar disposição e performance é uma das formas mais eficientes de produzir exatamente o hipogonadismo que se queria evitar.

Eritrocitose. Aumento de hemoglobina e hematócrito, ou seja, sangue mais espesso, com aumento de risco trombótico. É o efeito que mais exige monitoramento, e é justamente o que ninguém monitora nesse contexto.

Os próprios sinais do TRAVERSE. Embolia pulmonar, fibrilação atrial e arritmias apareceram em doses de reposição, com acompanhamento médico. Não há razão para supor que doses maiores, sem controle, sejam mais benignas.

A frase que resume

Os dados de segurança valem para quem tem indicação. Eles não transformam a testosterona em suplemento de bem-estar, nem em recurso de academia.

Se você já usa por conta própria, o pior caminho é parar de qualquer jeito ou seguir sem avaliação. Existe conduta para os dois cenários, e ela começa por saber em que ponto o seu eixo hormonal está.

O que um acompanhamento adequado inclui

Diagnóstico confirmado antes de iniciar, avaliação de risco prostático e cardiovascular, hematócrito monitorado, PSA acompanhado conforme a idade e o risco, reavaliação periódica dos sintomas e da necessidade de manutenção, e discussão explícita sobre fertilidade quando relevante.

Se você usa ou está considerando reposição de testosterona e quer que isso seja conduzido com essa estrutura, agende uma consulta.

Cada paciente deve ser avaliado individualmente. Nenhum tratamento hormonal deve ser iniciado, mantido ou interrompido sem acompanhamento médico.

Dr. Pedro Antônio de Paula de Pauli · CRM/SP 254.273

Área de atuação

Hipertrofia, performance e testosterona

Suporte clínico para ganho de massa muscular, com avaliação laboratorial, investigação de testosterona baixa e acompanhamento de composição corporal.

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Dr. Pedro Antônio de Paula de Pauli · CRM/SP 254.273 · CRM/MT 18.470

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