A frase se repete com uma consistência que chama atenção: "eu continuo comendo igual, treinando igual, mas o peso mudou de lugar". A barriga aumenta, os braços e as pernas afinam, e a roupa deixa de servir de um jeito diferente do que antes.
Isso tem explicação fisiológica bem documentada.
O que muda na composição corporal
Estudos prospectivos mostram que a transição menopausal está associada a aumento da gordura corporal total e, de forma mais marcada, da gordura visceral, aquela que fica entre os órgãos abdominais, não a subcutânea que se pinça com a mão.
O padrão de distribuição muda: sai de um padrão ginecoide (quadril e coxas) para um padrão androide (abdome). Comparações entre mulheres pré e pós-menopausa mostram, na pós-menopausa, menor massa magra, menor massa muscular esquelética e maior gordura visceral, percentual de gordura e relação cintura-quadril.
Um detalhe importante desses estudos: o ganho de gordura e peso ao longo do tempo foi significativo nas mulheres que se tornaram pós-menopausadas, o que aponta para a transição em si, e não apenas para o envelhecimento.
Por que acontece
Dois mecanismos se somam.
O primeiro é hormonal. A queda do estrogênio altera a distribuição do tecido adiposo e favorece o depósito visceral.
O segundo é energético. A transição menopausal está associada a redução do gasto energético e da oxidação de gordura. Ou seja, o mesmo padrão alimentar que mantinha o peso antes passa a gerar superávit.
Some a isso a perda de massa muscular que acompanha o processo, e você tem três forças empurrando na mesma direção ao mesmo tempo.
Por que a gordura visceral importa além da estética
Gordura visceral não é só uma questão de silhueta. Ela é metabolicamente ativa e está associada a resistência à insulina, alterações no perfil lipídico e maior risco cardiometabólico. É por isso que a mudança de distribuição merece atenção clínica, e não apenas ajuste de guarda-roupa.
O que funciona nesse contexto
A conduta muda de ênfase em relação a um plano de emagrecimento comum:
- Treino de força passa a ser prioridade, não complemento. É a intervenção mais direta contra a perda de massa muscular que acontece no período.
- Proteína adequada ganha peso pelo mesmo motivo.
- A meta deixa de ser só o número da balança. Uma mulher pode manter o peso e piorar a composição corporal, ou perder pouco peso e melhorar bastante o quadro metabólico. Medir composição corporal é o que torna isso visível.
- Avaliar o quadro hormonal e metabólico, incluindo perfil lipídico, glicemia, função tireoidiana e o próprio estado menopausal.
Sobre terapia hormonal: há dados observacionais associando seu uso a menor adiposidade total e visceral, mas essa não é indicação para tratamento de peso. A decisão sobre terapia hormonal se baseia em sintomas, risco individual e tempo de menopausa. O efeito sobre composição corporal, quando ocorre, é consequência, não objetivo.
Se o seu corpo mudou nessa fase e as estratégias que sempre funcionaram pararam de funcionar, agende uma consulta para avaliarmos composição corporal e quadro hormonal juntos.
Cada paciente deve ser avaliada individualmente.
Dr. Pedro Antônio de Paula de Pauli · CRM/SP 254.273
